Fim dos tempos

   Dia desses tava rolando por aqui um papo bem insosso, desses que de tão insosso fazem as pessoas chegarem num acordo amistoso bem rapidamente, mesmo com o 'desincentivo' alcoólico das belas tardes baianas de sexta feira. Mas o assunto estava tão chato, mas tão chato que teve que vir parar nesse blog, e num insight à la Dalton eu preferi guardar minhas idéias aos meus inúmeros leitores cibernéticos a entrar no assunto, vencer a discussão e encerrar a fonte gorda de novas idéias.
   É que existem algumas profissões baseadas em aventuras e invariavelmente ao melhor que a vida pode proporcionar: um trabalho gratificante, um futuro incerto e uma vida intensa (além da miséria) acompanham biólogos e muitos outros 'ólogos' por aí desde o princípio, transformando o espírito de seus seguidores e levando ao limite aquelas percepções diretamente ligadas à essência do natural (sem fazer coro aos hipócritas de marchas da maconha e afins). Basicamente esses seres procuram aproveitar o máximo das sensações, das experiências, da natureza, da vida e das mulheres siliconadas. Partindo desse pressuposto, vocês devem imaginar a surpresa - ainda que se tratasse de uma perspectiva inédita - com que eu me vi envolto numa discussão sobre o medo da morte. Nada mais natural, todos pensam, externam e corroboram-se mutuamente(!) numa discussão sonolenta. Mas só até que uma alma infeliz ergue um dedo pro censo comum que naquele momento se tornou para mim - um perfil de biólogo padrão, talvez estereotipado, inclusive - o mais abominável de todos os clichês da face da Terra:
   - Eu quero morrer dormindo.

   Uma revolução interna, uma enxurrada de sentimentos, fichas caindo nessa cabeça avantajada (sobre que aspecto vocês vão me dizer, só não aceito se o Patola der pitaco). Idéias novas, idéias geradas pela vívida rotina de biólogo na primeira experiência profissional na área. Pensando em filmes, livros, narrativas épicas e na partida do meu avô, meu primeiro sentimento foi de tristeza. Tristeza pelas pobres almas (agora excluindo o avô da lista, que infelizmente não tive o prazer de conhecer) que se foram desse mundo sabe-se lá pra onde sem saber que estavam indo. Sem sentir na pele os últimos segundos de sua existência, quando se está mais vivo do que nunca em meio ao turbilhão de emoções que precedem o último suspiro. Qual é a graça de não ver sua hora chegar e bater as botas sem ver passar por nossos olhos AQUEEEELE filme? Me perdoem os fracos e pobres de espírito, mas minha morte precisa ser uma experiência marcante. Não faria mal também um pouco de sanidade e consciência pra despedir-me, mesmo que internamente, das coisas que valeram a pena nessa vida. Também não faria mal ser por um motivo nobre, melhor ainda pra alimentar o último exemplar dos tigres brancos. Quem sabe com a cobertura da imprensa...
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   Ah, se tiver algo ou alguém com poder pra dizer amém a tudo isso, eu gostaria de acrescentar que o momento láá e tal não precisa ser demorado não. Muito menos antes dos 90.. hum.. ou 100..
120?

O gigante baiano do Alaska

    Faz pouco tempo que ouvi falar deles pela primeira vez, por meio de um grande amigo frequentador deste blog, um apaixonado pela vida e aspirante ao posto de novo Dan Brown (hahah, brincadeira). Acontece que apesar do sonho e do talento para as artes literárias, meu parceiro de campings e FZO's sempre teve ambições maiores para sua vida, não simplesmente ambições maiores, mas ambições monstruosas, GIGANTESCAS! Sim, essa é a palavra: gigantescas. Em meio a conversas impulsionadas pela falta de Hipoglos, mochilas pesadas, brigas estilo BBB (não que eu as conheça), escassez de água e dedinhos pedindo amputação, tomei conhecimento da existência de seres imunes a todas essas coisas. Seres superiores, indivíduos desconhecedores do medo, da dor, do sono, da fome, da preguiça, do ócio e de todos os outros 6 ou 7 mandamentos que nós, pessoas normais, também ignoramos (especialmente o que trata da mulher do próximo), mas que só o fazemos por culpa de nossa fraqueza.
    Mas o Túlio havia se cansado de ser fraco, o Túlio só queria ser um GIGANTE DO ALASKA. Porque os Gigantes do Alaska não são fracos. Os Gigantes do Alaska sequer conseguiriam entender o sentido de tal adjetivo, simplesmente por nunca o terem experimentado em nenhum momento por suas incontáveis gerações. Essa combinação abstrata de letras soaria para eles como soam para mim os ensinamentos filosóficos de Einstein ou as teorias físicas de Friedrich Nietszche. Só não poderíamos dizer que 'fraqueza' não se encontra no dicionário dos gigantes do Alaska, porque os Gigantes do Alaska não conhecem o dicionário, pelo simples motivo de o dicionário não servir para comer ou matar alguém, embora boatos dêem conta de que estudiosos foram mortos a dicionariadas (dos próprios dicionários) tentando desvendar alguns segredos dessas criaturas. Quem fomenta tais acusções ninguém consegue apurar, mas provavelmente foi morto. Ou comido. Ou ambos. Os detalhes aqui contidos não foram obtidos de relatos, nem de lendas folclóricas, muito menos de textos escritos em línguas raras e longínquas. Não estou aqui para recontar resultados de pesquisas em Wikipedias, mas repassar para vocês como foi encontrar um exemplar genuíno, um espécime legítimo dos lendários Gigantes do Alaska.
    Quem conhece o seu Adelino não percebe de cara que está diante de um ser mítico. Ao contrário de todos os relatos e desenhos rupestres - de autores mortos em métodos lentos e dolorosos - um Gigante de Alaska não é nem de longe uma espécie de pé grande. Nem do Alaska ele é! O Gigante do Alaska que eu conheci é baiano, mede pouco mais de um metro e meio e não come focas e ursos polares vivos. Sequer consegue comer peixe, pois lhe falta a grande maioria dos dentes. Branquelos, fortes, cruéis, assustadores? Porra nenhuma! Quem conheceu seu Adelino sabe que um verdadeiro Gigante do Alaska é preto, mirrado e o melhor anfitrião que se pode encontrar. Apesar de sua casa nos dar boas vindas com um aviso "AUTHORIZED PERSONNEL ONLY" - mensagem repetida logo abaixo, em japonês - ela está ali pelo mesmo motivo que estão sua mesa, seu telhado, sua parede, sua comida: encontradas na praia. Do telhado de palha de coqueiro e das paredes de madeira, papelão e palha aos "tesouros" vindos de grandes embarcações em alto mar, absolutamente tudo que o seu Adelino possui, ou caiu de um coqueiro, ou foi trazido pela maré, e cada pedaço foi pacientemente recolhido e colocado em seu lugar, um de cada vez ao longo dos anos, como só um Gigante do Alaska seria capaz de fazer. O banheiro fica sendo a duna mais próxima, o banho é desconhecido, o chão da casa é a areia da praia e a comida é caçada todos os dias pelo próprio baiano ou pelos cães, que com mais 2 ou 3 gatos completam a família na praia deserta.
    Mas nem tudo é novidade para nós sobre o mundo dos seres supremos. Mesmo após 20 ou 30 anos protegendo tartarugas marinhas, a experiência prática se sobrepõe enormemente aos conhecimentos teóricos, quase nulos, e nada poderia ser mais natural. Também os pés calejados, a habilidade com o facão, a 'ligeireza' com as mulheres (que é inversamente proporcional à idade destas) e a incrível capacidade de sobrevivência são quem denunciam: se trata de um Gigante do Alaska, e dos grandes. E apesar de tudo e qualquer coisa, encontrar o seu Adelino é um momento especial, um happy hour num cenário paradisíaco no meio do expediente. Seja pela água de côco tirada na hora, pelo sorriso desdentado imutável ou pela cachaça artesanal preparada por mãos experientes, será sempre uma grande honra encontrar o verdadeiro e único gigante baiano do Alaska.

Vida de rei na Bahea!


Na boa, já aguentei mais de 10 dias na Bahia. E mais de 10 dias atrás ainda choviam questões sobre o trabalho, sobre as tartarugas e, acreditem, sobre a dificuldade de se morar nesse lugar. 'A dificuldade de morar no paraíso?', eu me perguntava.
Conde. Cidade pequena, população pequena, recursos pequenos. Sítio do Conde, a cidade do Conde em miniatura, e claro, tudo menor ainda. De grande mesmo só o mar e a simplicidade dos habitantes mais antigos, alguns deles companheiros de trabalho, livres da contaminação que se apoderou das mentes mais jovens até por essas bandas, que trocam o Sol da Bahia pela TV, o barulho do mar pelas bandas mais pobres de conteúdo (vide xarlibrau), o Vitória e o Bahia por Flamengo, Cortinthians e Manchester, e até as babas diárias pelo W11. Como bom mineiro sem familiaridade com o mar, ainda que as chuvas do fim do inverno atrapalhem, vou tendo minha vida de rei na Bahia. Fato que me remete a minha experiência recente com o mais tradicional da culinária bahiana:
- Acarajé, meu rei?
'Meu rei', analisei. Tradição? Clichê? Tratamento carinhoso? Não importa. Atendi mesmo com pressa e sem fome, sem imaginar que acima de tudo aquela era uma previsão, como se além da bahiana mais típica, da roupa tradicional ao excesso de peso e colares, ela fosse também uma Iyalorixá. Começamos com um bolinho de feijão, parecido com os do Mineirão que só se come quando já tá caindo de bêbado. Vatapá, caruru, salada, camarão seco.. 'porque não? Vamo cair pra dentro!'. Hora da pimenta, nada de "quente ou frio?", clichê nada tradicional dos acarajés falsificados, ou mal falsificados, como o 'aracajé' de uma colega de trabalho. 'Ah, enche a colher aí' - respondi curta e grossamente e fui impiedosamente atendido.
A profecia foi se cumprir no dia seguinte. Acarajés excedentes guardados e esquentados no microondas para o café da manhã do outro dia são os piores, daqueles que você deveria comer sentado no vaso (parafraseando meu irmão sobre sua opinião a respeito de alguma coisa da culinária japonesa). Da primeira mordida à hora de dormir,  tive o ápice da minha vida de rei na Bahea. Da cama pro trono, do trono pra cama. Ainda bem que foi num dia de chuva. E graças ao painho que foi num dia de folga.