O gigante baiano do Alaska

    Faz pouco tempo que ouvi falar deles pela primeira vez, por meio de um grande amigo frequentador deste blog, um apaixonado pela vida e aspirante ao posto de novo Dan Brown (hahah, brincadeira). Acontece que apesar do sonho e do talento para as artes literárias, meu parceiro de campings e FZO's sempre teve ambições maiores para sua vida, não simplesmente ambições maiores, mas ambições monstruosas, GIGANTESCAS! Sim, essa é a palavra: gigantescas. Em meio a conversas impulsionadas pela falta de Hipoglos, mochilas pesadas, brigas estilo BBB (não que eu as conheça), escassez de água e dedinhos pedindo amputação, tomei conhecimento da existência de seres imunes a todas essas coisas. Seres superiores, indivíduos desconhecedores do medo, da dor, do sono, da fome, da preguiça, do ócio e de todos os outros 6 ou 7 mandamentos que nós, pessoas normais, também ignoramos (especialmente o que trata da mulher do próximo), mas que só o fazemos por culpa de nossa fraqueza.
    Mas o Túlio havia se cansado de ser fraco, o Túlio só queria ser um GIGANTE DO ALASKA. Porque os Gigantes do Alaska não são fracos. Os Gigantes do Alaska sequer conseguiriam entender o sentido de tal adjetivo, simplesmente por nunca o terem experimentado em nenhum momento por suas incontáveis gerações. Essa combinação abstrata de letras soaria para eles como soam para mim os ensinamentos filosóficos de Einstein ou as teorias físicas de Friedrich Nietszche. Só não poderíamos dizer que 'fraqueza' não se encontra no dicionário dos gigantes do Alaska, porque os Gigantes do Alaska não conhecem o dicionário, pelo simples motivo de o dicionário não servir para comer ou matar alguém, embora boatos dêem conta de que estudiosos foram mortos a dicionariadas (dos próprios dicionários) tentando desvendar alguns segredos dessas criaturas. Quem fomenta tais acusções ninguém consegue apurar, mas provavelmente foi morto. Ou comido. Ou ambos. Os detalhes aqui contidos não foram obtidos de relatos, nem de lendas folclóricas, muito menos de textos escritos em línguas raras e longínquas. Não estou aqui para recontar resultados de pesquisas em Wikipedias, mas repassar para vocês como foi encontrar um exemplar genuíno, um espécime legítimo dos lendários Gigantes do Alaska.
    Quem conhece o seu Adelino não percebe de cara que está diante de um ser mítico. Ao contrário de todos os relatos e desenhos rupestres - de autores mortos em métodos lentos e dolorosos - um Gigante de Alaska não é nem de longe uma espécie de pé grande. Nem do Alaska ele é! O Gigante do Alaska que eu conheci é baiano, mede pouco mais de um metro e meio e não come focas e ursos polares vivos. Sequer consegue comer peixe, pois lhe falta a grande maioria dos dentes. Branquelos, fortes, cruéis, assustadores? Porra nenhuma! Quem conheceu seu Adelino sabe que um verdadeiro Gigante do Alaska é preto, mirrado e o melhor anfitrião que se pode encontrar. Apesar de sua casa nos dar boas vindas com um aviso "AUTHORIZED PERSONNEL ONLY" - mensagem repetida logo abaixo, em japonês - ela está ali pelo mesmo motivo que estão sua mesa, seu telhado, sua parede, sua comida: encontradas na praia. Do telhado de palha de coqueiro e das paredes de madeira, papelão e palha aos "tesouros" vindos de grandes embarcações em alto mar, absolutamente tudo que o seu Adelino possui, ou caiu de um coqueiro, ou foi trazido pela maré, e cada pedaço foi pacientemente recolhido e colocado em seu lugar, um de cada vez ao longo dos anos, como só um Gigante do Alaska seria capaz de fazer. O banheiro fica sendo a duna mais próxima, o banho é desconhecido, o chão da casa é a areia da praia e a comida é caçada todos os dias pelo próprio baiano ou pelos cães, que com mais 2 ou 3 gatos completam a família na praia deserta.
    Mas nem tudo é novidade para nós sobre o mundo dos seres supremos. Mesmo após 20 ou 30 anos protegendo tartarugas marinhas, a experiência prática se sobrepõe enormemente aos conhecimentos teóricos, quase nulos, e nada poderia ser mais natural. Também os pés calejados, a habilidade com o facão, a 'ligeireza' com as mulheres (que é inversamente proporcional à idade destas) e a incrível capacidade de sobrevivência são quem denunciam: se trata de um Gigante do Alaska, e dos grandes. E apesar de tudo e qualquer coisa, encontrar o seu Adelino é um momento especial, um happy hour num cenário paradisíaco no meio do expediente. Seja pela água de côco tirada na hora, pelo sorriso desdentado imutável ou pela cachaça artesanal preparada por mãos experientes, será sempre uma grande honra encontrar o verdadeiro e único gigante baiano do Alaska.

3 comentários:

  1. Quem diria que naquele fim de mundo estaria um deles, hein?

    Os lendarios Gigantes do Alaska! O Brasil com certeza tem mto espalhados por esse sertao a fora!

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  2. Sorry pelo 'protejendo', de alguma forma passou batido... mas nunca é tarde...

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